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A
vida do Padre José de Anchieta
Um dos fundadores de São Paulo!
(San
Cristobal de Laguna, Tenerife, Ilhas Canárias, Espanha 1534 - Reritiba, atual
Anchieta ES 1597)
A
família de José de Anchieta era de guerreiros aguerridos. Um de seus
irmãos defendeu o estandarte de Tércios de Flandres, que lutavam até
a morte pela unidade religiosa nos campos da Espanha. Outro,
missionário, adentrou pelas terras ao norte do Rio Grande, hoje
território norte-americano, e seu primo o antecedeu nas missões
jesuíticas ao Brasil. José, por tradição, era destinado a ser
soldado. Mas seu pai, vendo o menino acanhado e versejando poesias
em latim já aos nove anos de idade, reconheceu que ele não
manifestava a mínima aptidão para a carreira militar.
Decidiu matriculá-lo no Colégio das Artes da Companhia de Jesus em Portugal. A
disciplina e a noção do dever dos jesuítas - Inácio de Loyola, o fundador da
Companhia, era, ele sim, um militar - deveria bastar à formação do garoto. Não
sendo soldado de armas, José de Anchieta seria soldado da fé. O garoto não
frustaria os anseios de seu pai. Pregando em terras distantes, onde os relatos
de seus milagres se multiplicaram, ele ainda pode vir a ser canonizado. Seria
a culminação de um percurso religioso que começou aos 14 anos, quando foi para
o colégio em Coimbra.
Tinha tanta facilidade em compor versos em latim quanto problemas por sua
fraca saúde, que necessitava sempre de cuidados. Alguns biógrafos dizem que
sofria de dores na coluna vertebral, já andava arqueado. Outros garantem que
uma escada da biblioteca do colégio caiu-lhe nas costas e, com o correr dos
anos, as conseqüências do acidente o deixaram quase corcunda. Foi para aliviar
tantos padecimentos que seus superiores conjeturaram sob a viabilidade de
mandá-lo para um clima ameno - o das Índias brasílicas, como era conhecido o
Brasil. Servir a Deus no Novo Mundo era sonho dos jovens religiosos da
Companhia de Jesus e José aceitou a ordem com a determinação dos que cumprem
uma missão divina. Tinha dezenove anos de idade quando chegou a Salvador, na
Bahia, depois de dois meses de viagem, em 13 de julho de 1553. Ficou ali por
pouquíssimo tempo. Manoel da Nóbrega, vice-provincial da Capitania de São
Vicente, onde se encontrava a pequena aldeia de Piratininga, precisava de sua
ajuda.
Ele sabia da sua competência em ler e escrever, e os jesuítas necessitavam
urgentemente de tradutores e intérpretes para falar o tupi, língua dos índios
do litoral brasileiro. Mais dois meses de viagem o aguardavam para chegar da
Bahia ao planalto paulista. Um percurso que, mais do que a travessia do
Atlântico em um galeão, fundou uma nova etapa na vida de José: a da aventura.
Violentas tempestades sacudiram sua embarcação na altura de Abrolhos e o
barco, com a s velas rotas e os mastros partidos, encalhou perto do litoral do
Espírito Santo.
A
nau que o acompanhava perdeu-se nas vagas e foi com seus destroços que a
tripulação pôde consertar os estragos e retomar a viagem. Mas, antes que isso
ocorresse, o pânico tomou conta dos passageiros - na praia, poderiam estar
esperando os índios tamoios, conhecidos antropófagos.
Destemido, Anchieta desceu à terra junto com os marinheiros, à procura de
mantimentos. Foi seu primeiro contato com os índios. Não se sabe muito bem o
que aconteceu, já que os biógrafos não entram em detalhes, mas é certo que
ninguém no barco foi molestado. Depois do sobressalto, ao desembarcar, o
pesadelo apenas começava. Para chegar do mar à aldeia de Piratininga, cerca de
mil metros acima, em um planalto, José tinha de percorrer o que foi chamado
por seus biógrafos como "o pior caminho do mundo" : uma picada em meio à Mata
Atlântica, que Anchieta fez muitas vezes à pé, pois cavalgar danificava sua
coluna.
Era verão, época das chuvas, calor e, principalmente, mosquitos. Sua visão das
terras de São Vicente e Piratininga, foi relatada em carta aos seus
superiores. Dizia ele das onças: "Essas (malhadas ou pintadas) encontram-se em
qualquer parte (...) São boas para comer, o que fizemos algumas vezes". Dos
jacarés: "Também há lagartos nos rios, que se chamam jacarés, de
extraordinário tamanho de modo a poder engolir um homem" . Ou sobre as
jararacas: "São muito comuns nos campos, bosques e até nas próprias casas, nas
quais as encontramos tantas vezes" .
José fala ainda dos mosquitos que "sugando o sangue, dão terríveis ferroadas",
das poderosas tempestades tropicais e inundações de dezembro. Apesar dos
transtornos, a luxuriante beleza da Serra do Mar deve tê-lo impressionado,
pois escreveu, anos depois, um tratado sobre as espécies animais e vegetais
que poderiam ser encontradas no Brasil, numa iniciativa pouco comum entre os
jesuítas.
Mas seu tema principal foram mesmos os índios" : Toda essa costa marítima, de
Pernambuco até além de São Vicente, é habitada por índios que, sem exceção,
comem carne humana; nisso sentem tanto prazer e doçura que freqüentemente
percorrem mais de 300 milhas quando vão à guerra.
E, se cativarem quatro ou cinco dos inimigos, regressam com grandes vozearias,
festas e copiosíssimos vinhos que fabricam com raízes e os comem de maneira
que não perdem nem sequer a menor unha". Anchieta se chocaria, como outros
cronistas da época, com a liberdade sexual dos indígenas: "... as mulheres
andam nuas e não sabem negarem-se a ninguém, mas até elas mesmas cometem e
importunam os homens, jogando-se com eles nas redes, porque têm por honra
dormir com os cristãos". Apesar do espanto, em pouco tempo, José aprendeu a
conhecer as particularidades da terra e da gente de seu novo lar.
A
Europa renascentista do séculos 16 fica para trás, já que Anchieta nunca
voltaria a rever o Velho Mundo. Um mês depois de sua chegada, em 25 de janeiro
de 1554, foi inaugurado o colégio jesuíta da Vila de Piratininga, data hoje
comemorada como fundação de São Paulo. Escreveu Anchieta: "Celebramos em
paupérrima e estreitíssima casinha a primeira missa, no dia da conversão do
apóstolo São Paulo, e por isso dedicamos a ele nossa casa". Ali moravam treze
jesuítas que tinham a seu cargo duas aldeias de índios com quase mil pessoas.
O local tinha apenas 14 passos de comprimento e 10 de largura, incluindo
escola, despensa, cozinha, refeitório e dormitório. Em resumo, era minúsculo.
Época de austeridade, tanto no espaço quanto nas vestes, as batinas de
Anchieta eram feitas com as velas imprestáveis dos navios. Ele só dormia
quatro a cinco horas por noite, pronto para se levantar se fosse preciso.
Ensinava gramática em três classes diferentes, subia e descia montanhas para
batizar ou catequizar e freqüentemente jejuava. Sua prontidão para levantar no
caso de um imprevisto fazia sentido. Ele viu Piratininga ser atacada pelos
tupis numa encarniçada luta que durou dois dias. Enquanto as mulheres e
crianças se recolheram à igreja em vigília permanente, os jesuítas cuidavam
dos mortos e feridos com ervas medicinais indígenas plantadas ao lado das
cercar do Colégio.
Mas, com a ajuda dos índios convertidos, a vila resistiu e os tupis acabaram
fugindo. Foram esses sustos eventuais, a aldeia de Piratininga florescia. José
se aplicava em escrever divertidas peças de teatro que encenava para os índios
e a formular a gramática da "língua mais usada na costa do Brasil", o
tupi-guarani, que seria publicada em Coimbra, em 1595. Era a primeira
gramática desde os gregos antigos, escrita por um ocidental, que não se
baseava nas regras do latim. Naquela época, não passava pela cabeça dos
colonizadores portugueses serem eles os intrusos e invasores das terras
indígenas. Os jesuítas estavam ali para salvar aqueles homens da barbárie e
reintegrá-los ao reino de Deus.
Foi essa missão que o levou, junto com Manoel da Nóbrega, à experiência talvez
mais dramática e definitiva de sua vida. Aos 30 anos, Anchieta rumou para
Iperoig, hoje Ubatuba, em São Paulo, para negociar com os bravios tamoios,
aliados dos franceses. Os índios, defendendo seu território, atacavam as
aldeias portuguesas do litoral e os prisioneiros eram simplesmente devorados.
Ele passou dois meses numa choça de palha tentando a paz e uma troca de
reféns. Quando as negociações chegavam a um impasse, as ameaças de morte
começavam. Finalmente Manoel da Nóbrega, doente e coberto de chagas, seguiu
para o Rio para enviar os prisioneiros. José se candidatou a ficar como refém.
O
cativeiro foi uma dura prova para Anchieta. Ali, além de fome, frio e
humilhações, pode ter passado pelo crivo da maior tentação: a da carne. Aos
prisioneiros que iam ser devorados, os tamoios tinham por costume oferecer a
mais bela jovem da tribo. O jesuíta havia feito o voto de castidade, ainda em
Coimbra, aos 17 anos.
E
seus biógrafos dizem que ele foi fiel a vida inteira. Talvez para fugir das
tentações, José escreveu na areia de Iperoig as principais estrofes dos 5 786
versos de um poema em latim contando a história de Maria. E ganhou, aos
poucos, a admiração dos tamoios por sua coragem e estranhos costumes, Quando
eles ameaçavam devorá-lo, José retrucava com suavidade: "Ainda não é chegado o
momento". E dizia a si mesmo, como contou depois, que primeiro deveria
terminar o poema à virgem. Outros relatos asseguram que sua facilidade em
levitar e a proximidade com os pássaros, que o rodeavam constantemente, teria
assustado os tamoios, que o libertaram finalmente, depois de assegurar a paz.
Anchieta, humilde, minimizava seus feitos. Quando lhe fizeram notar que os
pássaros o cercavam, ele respondeu que eles também costumava voar sobre
dejetos. Talvez tenha sido essa subserviente simplicidade que lhe rendeu
tamanho respeito entre os índios.
Quando morreu, em 9 de julho de 1597, aos 63 anos, na aldeia de Reritiba (hoje
Anchieta), no Espírito Santo, por ele fundada, os índios disputaram com os
portugueses a honra de carregar seu corpo até a Igreja de São Tiago. Anchieta
perambulou pelo litoral paulista, catequizando índios, batizando e ensinando.
Reza a lenda que ele costumava abrigar-se para dormir numa pedra, conhecida
como "cama de Anchieta" em Itanhaém. São numerosos os testemunhos de sua
levitação durante êxtases místicos. Afirmam também que multiplicou alimentos,
que comandava os peixes no mar. Já em 1617, o jesuíta Pêro Rodrigues foi
nomeado para escrever sua biografia. Como muitos dos relatos eram apenas de
testemunhas oculares e Roma precisaria de provas de um milagre de primeira
ordem, para incluir Anchieta entre seus 2500 santos, o processo se arrastou
durante séculos. Só em 1980 José foi honrado com a beatificação.
CRONOLOGIA DA VIDA DE JOSÉ DE ANCHIETA
1534 - Nasceu em
San Cristobal de Laguna, Tenerife, Ilhas Canárias (Espanha) - 19 de março
1548 - Coimbra,
Portugal - Matrícula na Universidade de Coimbra para aperfeiçoamento da língua
latina
1549 - Coimbra,
Portugal - Início de estudos eclesiásticos na Companhia de Jesus
1551 - Coimbra,
Portugal - Ingresso como noviço na Companhia de Jesus
1553 - Brasil -
Por conselho médico, em companhia do 2°. governador-geral, Duarte da Costa,
desembarca na Capitania da Bahia - Início de estudos da língua dos indígenas -
Segue para a Capitania de São Vicente
1554 - São Paulo do Campo de Piratininga
[São Paulo] - Professor de latim, professor de índios e mamelucos; professor
dos noviços que entraram para a Companhia de Jesus no Brasil - Participa, com
outros jesuítas da fundação do Colégio dos Jesuítas, núcleo da cidade de São
Paulo.
1563 - Ubatuba SP
- Participa com o Padre Manoel da Nóbrega do Armistício de Iperoig,
pacificando os índios (Confederação dos Tamoios) - Iperoig [Praia de
Iperoígue, Ubatuba] SP
1563 a 1595 - São
Paulo SP, Rio de Janeiro e Espírito Santo - Autor de poesia, teatro (em
verso), prosa informativa e histórica.
1569 - Reritiba
[Anchieta] ES - Reitor do Colégio de Jesus
1565 - Bahia
1566 - Rio de
Janeiro RJ
1567 - Bahia
1569 - Reritiba [Anchieta] ES
1569 a 1577 - São
Vicente SP
1577 a 1568 - Rio
de Janeiro RJ
1586 a 1597 -
Reritiba [Anchieta] ES
1597 - Reritiba,
atual Anchieta ES - Morre em 9 de junho
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