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A São Paulo de 1808
Ao entrar na cidade, embora esperássemos muito, por tratar-se da capital do distrito, residência do governador, ainda assim ficamos surpreendidos com o aspecto das casas, estucadas em várias cores; as das ruas principais possuíam de dois a três andares.

John Mawe (1716 – 1829)*

São Paulo, situada em um agradável planalto, com cerca de duas milhas de extensão, é banhada na base por dois riachos que, na estação das chuvas, quase a transformam em ilha, ligando-se à elevação por um caminho estreito. Os riachos desembocam em largo e belo rio, o Tiête, que atravessa a cidade em uma milha de extensão, tomando a direção sudoeste. Sobre ele existem várias pontes, algumas de pedra, outras de madeira, construídas pelo último governador.

As ruas de São Paulo, devido à sua altitude (cerca de cinqüenta pés acima da planície) e à água, que quase circunda, são em geral extraordinariamente limpas; pavimentadas com grés cimentado com óxido de ferro, contendo grandes seixos de quartzo redondo, aproximando-se do conglomerado.

À noite o frio é tanto que fui obrigado a fechar portas e janelas, a agasalhar-me melhor e a acender o fogareiro de carvão, no quarto, por falta de lareira.

Aqui existem numerosas praças e cerca de treze lugares de devoção, principalmente dois conventos, três mosteiros e oito igrejas, muitas das quais, como toda a cidade, construídas de taipa. ... Os telhados constroem-se de modo a se projetarem dois a três pés além da parede, fazendo com que chuva corra distanciada da base,; as calhas seriam um preservativo mais eficaz, mas aqui não se conhece seu uso. Telhas curvas cobrem as casas, mas embora a região ofereça excelente argila e lenha em quantidade, raramente cozinham tijolos.

Existem aqui poucas fábricas de importância; pequena quantidade de algodão é fiada a mão e a lã transformada em pano, que serve para uma variedade de roupas, camisas, etc. Fazem belas e variadas malhas para redes, com barra de renda, pendurada baixo para servir de sofá. As senhoras têm por ela particular predileção, principalmente quando a força do calor as predispõe para o descanso e a indolência. Quase todas fazem rendas, e algumas são muito hábeis.

Os comerciantes constituem classe numerosa que, como na maioria das cidades coloniais, negociam com quase tudo e, muitas vezes, fazem fortunas consideráveis. Existem poucos médicos, mas muitos boticários, alguns ourives cujos artigos não se distinguem quer pelo metal, quer pela mão-de-obra alfaiates e sapateiros e também marceneiros, que fabricam belas peças de madeira, mas seus preços não são tão moderados como os daquelas classes de comerciantes. Nos arredores da cidade vive certo número de índios crioulos, que fabricam louça de barro para cozinha, grandes jarros para água e uma variedade de outros utensílios, ornamentados com algum gosto.

Os habitantes são, na maioria, fazendeiros, e modestos lavradores, que cultivam pequenas porções de terra onde criam, para vender, grande número de porcos e aves domésticas. O mercado está geralmente bem abastecido deles e, na estação das frutas, encontram-se também pinhas, uvas, pêssegos, goiabas, bananas, poucas maçãs e enorme quantidade de marmelo.

As casas dos lavradores são miseráveis choupanas de um andar, o chão não é pavimentado nem assoalhado, e os compartimentos são formados de vigas trançadas, emplastadas de barro e nunca regularmente construídas. Para dar uma idéia da cozinha, que deve ser a parte mais limpa e asseada da habitação, o leitor pode imaginar um compartimento imundo, com o chão lamacento, desnivelado, cheio de poças de água onde, em lugares diversos, armam fogões, formado por três pedras redondas, onde pousam as panelas de barro, em que cozinham a carne; como a madeira verde é o principal combustível, o lugar fica cheio de fumaça que, por falta de chaminé, atravessas as portas e se espalha pelos outros compartimentos, deixando tudo enegrecido pela fuligem.

Pode-se bem imaginar que, em uma região como esta, um estrangeiro encontra maior prazer e conforto fora da casa. Os jardins, em São Paulo. E suas proximidades, são tratados com grande gosto e muitos deles com curiosa elegância. O jasmim é a planta favorita em toda parte e neste clima magnífico as flores desabrocham perenemente, tal como a rosa. Cravos vermelhos cor de rosa, flores da paixão, crista de galo, etc., crescem em grande profusão; um arbustos prediletos é a Palma Christi, que dá frutos no primeiro ano, dos quais se extrai óleo de rícino em abundância, óleo de todas as famílias possuem em quantidade tal que não se queima nenhum outro.

A nossa presença em São Paulo excitou de maneira indescritível a curiosidade do povo, que parecia nunca ter visto ingleses até então; as próprias crianças demonstravam seu espanto, constatando, admiradas, termos o mesmo número que elas. ... Nas festas públicas e nos bailes do governador encontramos novidade e prazer; novidade, porque fomos muito melhor recebidos do que nas colônias espanholas, e prazer por estarmos em um meio mais requintado e cortês.

Os vertidos das senhoras, principalmente na igreja, eram de seda preta, com um longo xale da mesma fazenda e guarnecidos com renda larga; na estação mais fria, vestiam casimira preta ou lã. Usavam quase sempre o mesmo xale nas ruas, embora seja parcialmente substituído por um casaco comprido, de lã grossa, enfeitado com veludo, renda dourada, fustão ou pelúcia, conforme os recursos do possuidor. Este abrigo é usado como uma espécie de casaco de casa, nos passeios à noite, em viagens e as senhoras, sempre que o vestem usam chapéus redondos. O ser paulista é considerado aqui, por todas as senhoras, grande honra; pois os paulistas são decantadas, em todo Brasil, pelos seus atrativos e dignidade e caráter: Extremamente abstêmias à mesa, seu divertimento favorito é a dança, em que revelam grande vivacidade e graça.

Nos bailes e outras festas públicas aparecem, em geral, em elegantes vestidos brancos, com uma profusão de colares de ouro no pescoço, o cabelo graciosamente penteado, preso com travessas. Sua conversa, sempre animada, parece ter qualquer coisa de musical. Na realidade, sua educação se restringe a conhecimentos superficiais; ocupam-se muito pouco com serviços domésticos, cofiando tudo quanto se refere às dependências inferiores da direção da casa ao negro ou à negra cozinheira e deixando todos os outros assuntos a cargo dos servos.

Os homens, principalmente de alta categoria, oficiais e outros, vestem-se muito bem; em sociedade, mostram-se muito delicados e atenciosos, procurando sempre agradar, são muito loquazes, propensos à jovialidade. As classes inferiores, comparadas com as de outras cidades coloniais, estão em um estado de civilização bastante adiantado.

As procissões religiosas são suntuosas, grandes e solenes; produzem um efeito chocante, devido à profunda veneração e ao zelo entusiástico do povo. Nessas ocasiões especiais, ocorrem todos os habitantes da cidade e a multidão é, freqüentemente, acrescida por numerosos lavradores vizinhos, de várias léguas ao redor. As senhoras, que consideram o dia como de festa, em seus vestidos de gala enchem as sacadas das casas, de onde se tem melhor visão do espetáculo; a noite termina, em geral, com chá e partidas de cartas ou danças.

O pão é muito bom e a manteiga tolerável, mas usada raras vezes, exceto com café da manhã e no chá, à noite. Prato bastante comum no almoço é uma variedade de ervilhas, muito gostosa, chamada feijão, cozida ou misturada com farinha de mandioca. O jantar, servido usualmente ao meio dia ou mais cedo, consistem em geral em uma quantidade de verduras fervidas com cerne de porco gorda ou bife, uma raiz de espécie da batata e uma galinha recheada, com excelente salada, seguida por grande variedade deliciosas conservas de doces. Tomam muito pouco vinho às refeições.

Em ocasiões públicas ou quando se oferece uma festa a muitos convidados, ornamenta-se a mesa suntuosamente; servem-se, de uma só vez, de trinta e cinqüenta pratos, arranjo pelo qual se evita uma série de mudanças de pratos. O vinho circula copiosamente, repetindo-se os brindes durante o banquete, que dura, em geral, d duas a três horas, seguido de doces, o orgulho da mesa; depois do café, os convidados passam a noite dançando, ouvindo música, jogando cartas.

Costume singular que não devo omitir, é de atirar frutas artificiais, tais como limões e laranjas, feitas de cera, com grande habilidade e cheias de água perfumada. Nos primeiros dias da quarentena, comemorados com grandes festividades, pessoas de ambos os sexos divertem-se jogando, umas sobre as outras, essas bolas. ... Nestes dias de carnaval os habitantes percorrem as ruas mascarados e a brincadeira de atirar frutas é praticada por pessoas de todas as idades. Considera-se de grande impropriedade um cavalheiro atirá-las sobre outro. A fabricação deste projéteis, neste períodos, proporciona trabalho considerável a determinadas classes.

(John Mawe, “Viagens ao Interior do Brasil”, págs. 74, 75, 77, 78, 79, 80, 84, 85, 90, 91, 92 e 93)