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Crônica de Cardoso de Abreu sobre a SP de 1783
Cardoso de Abreu*

"É a cidade de São Paulo cabeça da capitania, onde residem os generais e bispos e tem duas comarcas – uma da sua ouvidoria e outra da vila de Paranaguá. Os habitadores da cidade vivem de várias negociações: uns se limitam a negócio mercantil, indo à cidade do Rio de Janeiro buscar as fazendas para nela venderem; outros, da extravagância de seus ofícios; outros vão a Viamão buscar tropas de animais cavalares ou vacuns para venderem, não só aos moradores da mesma cidade e seu continente como também os andantes de Minas Gerais e exercitam o mesmo negócio vindo comprar os animais em São Paulo para os ir vender a Minas, e outros, finalmente, compram alguns efeitos da mesma capitania, como são panos de algodão e açúcar, e vão vender às Minas, labutando nesta forma todos naquilo a que se aplicam.

É a cidade aprazível pelo terreno e saudável pelos ares e não é muito pequena, pois se conhece a sua grandeza pelo número das ruas, cujas são: de São Bento, Direita, de São Francisco, das Casinhas, da Freira, de São Gonçalo, da Sé, das Flores, do Carmo, que é onde está o palácio dos generais, do Rosário, da Quitanda e Nova de Guaçu, todas elas com suas travessas correspondentes, com o defeito, porém, de serem a maior parte das casas térreas e as ruas mal ordenadas e mal calçadas.

Tem vários templos, como são: a Sé, os conventos do Carmo e de São Francisco, São Bento, Santa Teresa, São Pedro, o Colégio que foi dos denominados jesuítas, em que assiste o bispo, o da Misericórdia, de Santo Antônio, Rosário dos Pretos e São Gonçalo dos Pardos, entre os quais tem alguns bem acabados e magníficos, e fora da cidade, em distância de trezentas braças mais ou menos, está o recolhimento da Luz, onde vão os magnatas da cidade e o mais plebeu, por passeio, divertir-se".

*(Manoel Cardoso de Abreu, “Divertimento Admirável para os historiadores observarem as máquinas do mundo reconhecidas nos sertões da navegação das minas de Cuiabá e Mato Grosso”, in “Roteiros e Notícias de São Paulo Colonial”, págs. 83 e 84)