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Crônica de Fernão Cardim
sobre a SP de 1585
Fernão Cardim (1585) *
“Ao dia seguinte vieram os
principais da vila três léguas receber o padre. Todo o caminho foram
escaramuçando e correndo seus ginetes, que os têm bons, e os campos são
formosíssimos, e assim acompanhados com alguns vinte de cavalo, e nós
também de cavalo, chegamos a uma Cruz, que está situada sobre a vila,
adonde estava prestes um altar debaixo de uma fresca ramada, e todo o mais
caminho feito um jardim de ramos... Fomos em procissão até a igreja com
uma dança de homens de espadas e outra dos meninos da escola; todos iam
dizendo seus ditos às santas relíquias.
Piratininga é uma vila da invocação da conversão de São Paulo; está do
mar, pelo sertão dentro, doze léguas; é terra muito sadia, há nela grandes
frios e geadas e boas calmas, é cheia de velhos mais que centenários,
porque em quatro juntos e vivos se acharam quinhentos anos. Vestem-se de
burel e pelotes pardos e azuis, de pertinas compridas, como antigamente
vestiam. Vão aos domingos à igreja com roupões ou berneos de cacheira sem
capa. A vila está situada em bom sítio ao longo de um rio caudal.
Terá cento e vinte vizinhos com muita escravaria da terra, não tem cura
nem outros sacerdotes senão os da Companhia, aos quais têm grande amor e
respeito, e por nenhum modo querem aceitar cura. Os padres os casam,
batizam, lhes dizem as missas cantadas, fazem as procissões e ministram
todos os sacramentos, e tudo por sua caridade; não tem outra igreja na
vila senão a nossa.
Os moradores sustentam seis ou sete dos nossos, com suas esmolas, com
grande abundância: é terra de grandes campos e muito semelhante ao sítio
de Evora na boa graça e Campinas, que trazem cheias de vacas, que é
formosura de ver. Têm muitas vinhas e fazem vinho e o bebem antes de
ferver de todo; nunca vi em Portugal tantas uvas juntas, como vi nestas
vinhas; tem grandes figueiras de toda sorte de figos bersaçotes, beberas e
outras castas, muitos marmeleiros, que dão quatro camadas, uma após a
outra, e há homem que colhe doze mil marmelos, de que fariam muitas
marmeladas; tem muitos rosais de Alexandria e porque não tem das outras
rosas, das de Alexandria fazem açúcar rosado para mezinha, e das mesmas
cozidas, deitando-lhe a primeira água fora, fazem açúcar rosado para comer
e fica sofrível; dá-se trigo e cevada nos campos: um homem semeou uma
quarta de cevada e colheu sessenta alqueires; é terra fertilíssima, muito
abastada: quem tem sal é rico, porque as criações não faltam.
Tem grande falta de vestido, porque não vão os navios a São Vicente, senão
tarde e pouco; há muitos pinheiros, as pinhas são maiores, nem tão bicudas
como as de Portugal: e os pinhões são também maiores, mas muito mais leves
e sadios, sem nenhum extremo de quentura ou frialdade, e é tanta
abundância que grande parte dos índios do sertão se sustentam com pinhões;
dão-se pelos matos amoras da silva, pretas e brancas, e pelos bredos,
beldroegas, almeirões bravos e mentrastos, não falo nos fetos, que são
muitos e de altura de uma lança se os deixam crescer. Em fim, esta terra
parece um novo Portugal.
Os padres têm uma casa bem acomodada, com um corredor e oito cubículos de
taipa, guarnecida de certo barro branco, e oficinas bem acomodadas. Uma
cerca grande com muitos marmelos, figos, laranjeiras e outras árvores de
espinho, roseiras, cravos vermelhos, cebolas cecêm, ervilhas, borragens e
outros legumes da terra e de Portugal. A igreja é pequena, tem bons
ornamentos e fica muito rica com o Santo Lenho e outras relíquias que lhe
deu o padre visitador.”
*(Fernão Cardim, “Tratados da Terra e Gente do Brasil”, págs. 312, 313,
314 e 315)
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