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A Locomotiva
A capital perdeu espaço mas, ainda assim, responde por uma significativa parte  da produção industrial do país. Uma locomotiva de respeito!

Em 1890, com população em torno de 70 mil habitantes, São Paulo já era vista como uma cidade onde tudo acontecia e para onde rumavam os “business man” e os turistas, como constatou o filho do então cônsul da Suíça na capital, Henrique Raffard. Foi justamente nesta época que São Paulo despertava para sua vocação de grande centro industrial. O início do processo de industrialização deve-se ao café e aos investimentos em infra-estrutura gerados pela procura do mercado externo pelo produto.

A industrialização começou da forma mais simples possível, com a fabricação de produtos de baixo valor e pouco elaborados, usando matérias-primas nacionais como o próprio café, o algodão, o couro e o açúcar. Foi no início do século XX que um dos grandes industriais paulistas começou a construir seu império: Francisco Matarazzo. Apenas 9 anos após chegar ao Brasil vendendo banha importada, o italiano da Calábria construiu um moinho para produzir farinha de trigo, fundamental na preparação dos principais pratos da sua terra natal.

Em poucos anos os Matarazzo ergueram o maior complexo industrial da América Latina. As fábricas visavam a auto-suficiência dos negócios, ou seja, a não-dependência das importações. E assim as indústrias Matarazzo produziam não apenas a farinha mas a embalagens e os rótulos, e as máquinas eram consertadas em oficinas próprias.

Os imigrantes foram os precursores no processo de industrialização. Em parte porque, em 1920, quase 2/3 da população paulista (de quase 600 mil pessoas) eram imigrantes. Além disso eram mais preparados, muitos já haviam sido operários e boa parte deles chegava ao Brasil com algum dinheiro. Neste grupo de pioneiros estavam também os irmãos Jafet, atuando no ramo de tecidos, Rodolfo Crespi, os irmãos Puglisi Carbone e a família Klabin, que fundaria a primeira grande indústria de celulose do Brasil. Além de serem imigrantes eles tinham outra coisa em comum: todos começaram trabalhando com importações antes de se aventurarem na produção.

O símbolo do sucesso dos imigrantes na época foi o edifício Martinelli, construído entre 1922 e 1930 no centro da cidade. O prédio foi, por dez anos, o mais alto de São Paulo, com 25 andares e 100 metros de altura. Construído em concreto armado e sob condições adversas na época – havia um rio sob o prédio – a obra ganhou o status de proeza arquitetônica. Quando o Brasil declarou guerra aos países do Eixo em 1943, os bens de Giuseppe Martinelli foram confiscados e o prédio transformou-se em um cortiço. A recuperação veio nos anos 70, com uma reforma e a ocupação do espaço por escritórios e repartições públicas.

Santa Efigênia, Brás, Mooca, Sé e Consolação concentravam o maior número de indústrias e o Bom Retiro, na mesma região, tornou-se o refúgio dos operários. Ali foi gerada, em 1917, a primeira grande greve do país. A cidade parou por vários dias, até que os “patrões” decidiram negociar. Os grevistas pediam melhores salários (o que ganhavam era insuficiente para cobrir as necessidades básicas), jornada de oito horas e seis dias por semana, proibição do trabalho para menores de 14 anos, entre outros direitos. Os confrontos com a polícia terminaram com a morte do sapateiro anarquista Antonio Martinez.

O crescimento industrial foi especialmente rápido no período 1910-20, e um pouco mais lento nos vinte anos seguintes, a fase entre-guerras. Os conflitos contribuíram para a diversificação da indústria nacional, uma vez que as grandes fábricas dos Estados Unidos e Europa estavam voltadas para as necessidades geradas pelas guerras. Na década de 50 o país e seu mercado consumidor considerável são descobertos pelas empresas multinacionais, mudando o perfil industrial que vigorara até então. No início do século XXI, 400 delas já tinham filiais em São Paulo.

O estado de São Paulo – liderado pela capital e região metropolitana - é hoje o maior pólo de negócios da América Latina, concentrando 30% de todos os investimentos privados realizados em território nacional. São 155 mil indústrias que representam 34% do PIB industrial brasileiro, segundo dados da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo). A capital perdeu espaço e hoje seu forte está no setor de serviços mas, ainda assim, responde por 9,4% da produção industrial do país. Uma locomotiva de respeito.

Fontes: “A industrialização de São Paulo”, Warren Dean; “Raízes da concentração industrial em São Paulo”, Wilson Cano; “A evolução industrial de São Paulo”, Edgard Carone, “Memória da Cidade de São Paulo - Depoimentos de moradores e visitantes”, Ernani Silva Bruno.