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Itaquera
Itaquera, uma região forjada a duras pedras

O que o Obelisco do Ibirapuera, na Zona Sul, e a Catedral da Sé, no Centro, têm a ver com Itaquera, na Zona Leste? Pedras. Tanto a base do monumento como as escadarias da Sé foram feitas com a matéria-prima que durante quase um século gerou empregos e movimentou a economia do bairro. Itaquera, aliás, na língua dos índios guaianases, significa “Pedra Dura”.

Muito da história de Itaquera foi documentada pela moradora Magdalena Pellici Monteiro, uma apaixonada por esse pedaço de terra, ou, de pedra. Magdalena tem catalogadas mais de 150 fotografias, antigas e atuais, sobre a região, e está sempre à procura de novos pontos para registrar, como o terreno ao lado do Metrô Corinthians-Itaquera, onde um shopping está em construção.

Magdalena constrói o elo entre o passado e o presente dessa que é hoje uma das regiões mais populosas da cidade, com cerca de meio milhão de habitantes distribuídos em quatro distritos: Cidade Líder, Parque do Carmo, Itaquera e José Bonifácio. Dos quase 500 mil itaquerenses, 180 mil vivem nos conjuntos habitacionais construídos pela Companhia Metropolitana de Habitação (Cohab-SP) a partir de 1978.

História documentada

Magdalena viveu por mais de 30 anos dentro da Pedreira União, a primeira a ser fechada, na década de 70. Seu pai, o imigrante italiano Orlando Pellicci, foi administrador da pedreira de 1926 a 1961. “Quando as pedreiras fecharam, houve um grande desemprego. As pessoas que trabalhavam lá não sabiam nem ler nem escrever direito, só sabiam fazer aquilo”, recorda a moradora.

O desemprego ainda assusta os itaquerenses e movimenta entidades e lideranças interessadas em minimizar o problema número um dos habitantes, principalmente os jovens, que representam quase 50% do total da população. É o caso da Obra Social Dom Bosco, comandada pelo padre Rosalvino Moran Vinãyo há 25 anos, e que atualmente atende a aproximadamente 6 mil jovens em situação de vulnerabilidade social, além de manter orfanatos, creches e trabalho de atendimento psicológico para adultos e famílias.

O núcleo profissionalizante da Dom Bosco é tão procurado que alguns dos cursos (moda, marcenaria, auto-mecânica, elétrica e construção civil, por exemplo) têm as vagas preenchidas até 2010. “Temos também o Gestão de Talentos. Quase todo os dias, empresários nos pedem, e nós encaminhamos os jovens”, afirma o Padre Rosalvino.

Investimento

Ao longo das últimas décadas, a região vem perdendo indústrias, atraídas pelos benefícios e isenções fiscais oferecidos por municípios vizinhos. “Tem que desenvolver, para que os habitantes daqui trabalhem no bairro e não sejam mais obrigados a se locomover durante horas para trabalhar”, enfatiza Rosalvino.

O fortalecimento do Pólo Industrial de Itaquera, criado oficialmente pelo governo do Estado em 2004, é um objetivo compartilhado pela Associação de Indústrias da Região de Itaquera (Airi). Fátima Andrijic Marinera, presidente da associação e dona de uma indústria de artefatos de borracha do pólo, acredita que a obra da Jacu-Pêssego, a conclusão da extensão da Radial Leste até Guaianases e a concretização dos incentivos fiscais previstos pela lei nº 13.833 sejam os passos fundamentais para esse desenvolvimento.

Os imigrantes japoneses

Em Itaquera, próxima ao Pólo Industrial, está uma das maiores áreas verdes de São Paulo, a Área de Preservação Ambiental (APA) do Carmo. Lá se encontram chácaras, em geral de descendentes de imigrantes japoneses, onde resistem o cultivo de flores e frutas e a prática da pesca. A chácara da família Yoshioka é uma das mais antigas da região e atualmente produz ameixa, flores para ikebana (técnica de arranjos japonesa) e mudas de cerejeira para a festa que acontece todo ano no Parque do Carmo.

Patrício, filho do imigrante japonês Guichi Yoshioka, mantém a tradição agrícola da família no mesmo pedaço de 50 mil metros quadrados adquirido pelo pai em 1937. Aliás, Guichi e outros imigrantes da colônia nipônica emprestam os nomes à maioria das ruas dali, na área delimitada pelo Parque Municipal do Carmo até a divisa com Guaianases e pelas avenidas John Speers e Ragueb Chofhi.

Vale destacar que John Speers e Jaime Ribeiro Wright eram os donos de grande parte da área quando os japoneses ali chegaram. A partir de 1925, de olho no potencial daqueles terrenos, lotearam suas fazendas e começaram a vender os pedaços para os imigrantes, interessados no “solo bom para o cultivo”.

“Gosto de Itaquera, o ar é excelente e tem as vias de acesso boas também”, comenta Patrício. Além da plantação para venda, ele e a mãe, Osame, de 93 anos, dedicam especial atenção à sua coleção pessoal de árvores. Dentre as espécies da coleção está um exemplar de Castanopcis (Shii, nome popular), cuja semente veio do Japão em 1954, trazida por um parente. Patrício era menino quando a árvore ainda tinha pouco mais de um palmo. Hoje, a Shii resplandece, frondosa, ao lado das casas onde vive com a esposa Rosa, filhos e netos.

Até 2000, no entanto, a marca da produção na colônia japonesa de Itaquera foi o pêssego, cultivado desde a década de 40. Não é à toa que uma das mais importantes vias da região teve durante décadas o nome de Estrada do Pêssego, e hoje leva a denominação de Jacu-Pêssego, variação que inclui o nome do principal rio que corta o distrito. De acordo com Patrício, os agricultores de Itaquera decidiram finalizar a produção de pêssego em razão da fragilidade da cultura, muito suscetível a doenças e insetos.

A tradicional Festa das Cerejeiras, que no último 7 de agosto chegou à sua 27a edição, atrai os habitantes de toda a Colônia de Itaquera e descendentes japoneses de outras partes da cidade. Segundo os cálculos da Associação das Cerejeiras do Parque do Carmo, este ano, as mais de 1.500 unidades de Sakura (nome da árvore em japonês) foram contempladas por mais de 2.000 pessoas.

Delicadas flores

A variedade mais comum no Bosque das Cerejeiras existente dentro do parque é a Yukiwari, cuja florada acontece naturalmente em meados de agosto, mas é “acertada”, com o uso de produto químico, para o primeiro domingo de agosto, quando acontece a festa. A partir da estréia da florada, os interessados em praticar o Hanami (em japonês, hana significa flor, e mi, olhar) têm apenas cerca de 15 dias para apreciar as árvores vestidas das delicadas flores rosas.

Depois, é preciso esperar a próxima florada. “Vamos apreciar a flor que simboliza o Japão. A beleza é sensacional”, conta Patrício, que, com a família, ajuda a organizar a festa. Gratuito, a festa oferece ainda danças folclóricas, musicais e comidas típicas japonesas.

“Itaquera é rica de conhecimento e quero muito que os jovens continuem lutando por ela. Gostaria que essa geração se aprofundasse mais na história de seus antepassados para saber que eles tiveram um passado rico e que têm garra para seguir em frente”, resume Magdalena Pellici.


Fonte: Dados e depoimentos obtidos com a prefeitura da cidade de São Paulo