Vencer não é o que importa
Bagunça, anarquia, subversão. Termos bastante comuns para designar qualquer coisa que fugisse um pouco da normalidade e do torpor que dominavam o Brasil durante o período da ditadura militar. No começo dos anos 1980, o país começava a se erguer, ver que os milagres já não eram suficientes e que algo faltava. Democracia.
“A liberdade está em primeiro lugar e que não poucas vezes foi chamada de bagunça, anarquia e subversão.” É assim que Juca Kfouri descreve na página 20 da revista Placar número 709 (disponível clicando aqui) como era a trajetória de algo novo que surgiu no futebol entre os anos de 1982 e 1983. Uma experiência diferente. Que não seria igualada dentro do futebol brasileiro. Foi o que se chamou de Democracia Corintiana.

Parecia idílico. Se tratava de um sistema de gestão idealizado por jogadores de consciência política como Sócrates, Casagrande, Zenon e Wladimir e os dirigentes Waldemar Pires e Adílson Monteiro Alves. Dentro do sistema, os atletas votavam junto com os cartolas do clube para decidir os rumos do Corinthians. E mais, regido por esse sistema, a agremiação obteve bons resultados como o bicampeonato paulista. Parece cinematográfico.
Não a toa, virou. Nesta quinta-feira (8/dez), o Museu do Futebol abriga a estreia de “Ser Campeão é Detalhe” (DNA Filmes/Unicamp). A película conta a história do movimento por meio daqueles que o protagonizaram. A única notável exceção é Casagrande. “No primeiro momento que tentamos gravar o depoimento ele passava por problemas pessoais e depois houve um conflito de agenda”, conta Rubens Passaro, produtor do filme.
De resto todos estão lá, dos jogadores aos dirigentes, passando por jornalistas, membros da comissão técnica e o publicitário Washington Olivetto. “Foi ele que bolou campanhas como estampar na camisa “Dia 15 vote” [referência às eleições estaduais de 15 de novembro de 1982, o primeiro pleito do gênero desde os anos 1960] e o logotipo do movimento da democracia”, explica o diretor Gustavo Forti Leitão. Também depõe no documentário o pesquisador José Paulo Florenzano, autor da tese “A Democracia Corintiana (práticas de liberdade no futebol brasileiro).”
A obra começou como um trabalho de conclusão de curso de alunos de midialogia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) em 2008. O que impediu o filme de ser completamente finalizado foi o alto custo das imagens de arquivo. “Comprar imagens de arquivo sai por volta de R$ 2.500 por minuto. Não tinha como fazer um filme de futebol só com fotografias, sem imagens de gols”, diz Passaro. A parceria com a DNA Filmes possibilitou o financiamento e a pós-produção do projeto.
Não existe um gancho específico para a produção ou o lançamento do filme pois não se tratam de datas redondas. “ Nossa intenção é deixar registrado esse período. Se trata de um momento muito importante não só do futebol, como da história do Brasil. É interessante no futebol, de estruturas conservadoras, passar a ideia de um sistema de trabalho por meio do diálogo. É usar o futebol como arma política”, expõe Leitão.
Era definitivamente um grupo de pessoas diferentes naquele meio futebolístico. “Você vê o Sócrates se posicionando, não comemorando quando marcava gols, subindo em palanques. O Vladimir trabalhou em sindicatos. O Casagrande também. Iam a shows de rock. O torcedor via a democracia funcionando. Mostrando que o futebol não é alienante”, conta Passaro.
Inegavelmente, Sócrates foi um dos principais artífices do movimento. E essa irreverência se reflete em campo também. “Ele mudou a cabeça da torcida do Corinthians. Logo que ele chega, fala que é santista. O estilo de jogo dele é mais cadenciado, não é aquele cara que come grama, como gosta a torcida do Corinthians”, afirma Leitão. O fato da data de estreia estar a menos de uma semana da morte do “doutor” é apenas uma coincidência. O evento estava marcado há mais de três meses.
O filme – na maneira mais democrática possível – será disponibilizado via internet gratuitamente para qualquer interessado a partir do dia 9 de dezembro. Logo após o lançamento desta quarta-feira haverá debates dos produtores do filme, os jogadores Zenon e Juninho, o técnico Mario Travaglini, o pesquisador José Paulo Florenzano e o publicitário Sérgio Scarpelli.
Assista ao filme completo:
Serviço
Estreia do filme “Ser Campeão é Detalhe”
8 de dezembro, 19h
Museu do Futebol – Praça Charles Miller, sem número, Estádio do Pacaembu, São Paulo-SP
Entrada gratuita
http://www.sercampeaoedetalhe.com.br









